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OMG! She's a book reviewer!



Sábado, 25.10.14

Haruki Murakami - Underground

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A 20 de março de 1995 eu tinha 11 anos e é estranho que não me lembre de ver na televisão imagens do atentado em Tóquio. O nome Aum Shinrikyo também não me dizia nada, por isso este livro foi para mim, em vários aspetos, uma revelação. Conhecer os contornos de um ataque com gás sarin no metropolitano mais movimentado do mundo e tentar perceber melhor a mentalidade japonesa foram argumentos suficientes para me entusiasmar.
Esta edição junta dois livros que foram publicados no Japão em anos diferentes: o primeiro contém testemunhos de vítimas, familiares e equipas de socorro; o segundo de pessoas que estiveram ligadas à Aum, a seita religiosa a quem foi atribuída a autoria do atentado. Se a primeira parte do livro foi a mais emotiva, a segunda foi a mais elucidativa e perturbadora.
Murakami soube vestir estes testemunhos com o guarda-roupa de um romance e imprimiu-lhes o ritmo que vulgarmente associamos à ficção. Vivi, como se lá tivesse estado, os acontecimentos dramáticos aquela segunda-feira de manhã, fiquei a conhecer os efeitos do sarin, percebi a forma como as equipas de salvação atuaram e consegui traçar um retrato mais preciso do típico cidadão japonês.
Impressionou-me o seu sentido de dever enquanto trabalhador, o individualismo e inesperada desorganização em situações de crise, a calma e a confiança que depositam na justiça («Faço um esforço para não odiar a Aum. Deixo-os nas mãos das autoridades. (...) Não tenho o menor interesse no veredicto ou no castigo. Isso é com o juiz.»). Sem nada conhecer do Japão - esse lugar estranho - fiquei com a ideia de serem um povo atento ao detalhe, talvez um pouco supersticioso («Olhando para trás, tudo começou porque o autocarro estava adiantado dois minutos») e, sobretudo, com uma elevada espiritualidade.
No entanto, nenhum testemunho, nem sequer as intervenções do autor no prefácio e restantes apontamentos, parecia conseguir responder às questões basilares que iam surgindo à medida que prosseguia com a leitura: haveria um motivo, e qual seria, para se levar a cabo um ato indiscriminado como aquele? Como é que a Aum funcionava? De onde vinha o dinheiro? Como se explicava o sucesso de uma seita à qual acabaram por aderir cerca de 10 mil japoneses? Claro que parto do princípio que no Japão, à data de publicação do livro, todos estivessem familiarizados com os princípios da Aum, não só pela sua notória popularidade antes do atentado, mas porque depois dele não se deve ter falado noutra coisa. Porém, o que lia não estava a ser suficiente para me enquadrar na realidade espiritual dos que aderiram a esta seita e foram capazes de cometer tamanha monstruosidade e isso deixou-me, durante muitas dezenas de páginas, bastante confusa.
Só perto do final se fez luz e fui transportada para um universo paralelo. Um universo onde pessoas insatisfeitas e inadaptadas foram arrebatadas por um discurso lógico baseado numa realidade distorcida («O triste facto é que a linguagem e a lógica, separadas da realidade, têm um poder muito maior do que a linguagem e a lógica da realidade»). Pessoas que executaram todo o tipo de tarefas para «acumular mérito», sendo essa a única forma de obterem a «energia» necessária para se «elevarem a um nível superior» («(...) na Aum havia a ideia de que se tinha de passar por todo o tipo de provas duras e superá-las.»), que doaram todos os seus bens e renunciaram ao mundo secular para mais rapidamente «atingirem a libertação» e que depositaram o seu «Eu» nas mãos de um líder «iluminado» em quem confiavam cegamente.
Este é um retrato inquietante dos problemas que podem causar o descrédito na sociedade atual e a falta de integração. Na verdade, em qualquer momento, em qualquer lugar, pode aparecer um Shoko Asahara bem falante que prometa mundos e fundos e que reinicie o processo. E o próximo passageiro no metro podemos ser nós.

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por Inês às 10:46


4 comentários

De marcia a 25.10.2014 às 20:40

Tenho de ler, pronto. Não me perdoo pelas vezes que vi este livro em feiras e não comprei.

De Inês a 26.10.2014 às 22:47

Tens de aproveitar a próxima promoção, sem dúvida!

De Patrícia a 26.10.2014 às 13:43

Bem eu quero ler todos os livros do Murakami. Acho que este vai pular uns lugares na lista de livros a comprar.
Boas leituras

De Inês a 26.10.2014 às 22:47

Eu só tenho pena que o Murakami tenha poucos livros de não ficção. Acho que ele é ótimo também nesta vertente :)

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